domingo, 30 de dezembro de 2012

O início da carreira de Lemony Snicket


Lemony Snicket voltou com mais uma série de livros situada no universo de Desventuras em Série. Mas em "Quem Poderia Ser A Uma Hora Dessas?", ao invés de órfãos sem lugar para ficar e incendiários fugitivos, o protagonista é o próprio Lemony Snicket, que nos conta como foi sua infância e suas primeiras missões.
Depois de sua formatura, Lemony escolhe a pior tutora da lista, na esperança de poder ir para a cidade grande, e ter tempo livre o suficiente para trabalhar em seus projetos paralelos com uma aliada misteriosa. Porém, ele acaba na miserável cidade de Manchado-Pelo-Mar, onde terá sua primeira missão: roubar uma pequena estatueta no formato de uma criatura mística do folclore da região, a Fera Ressonante, e devolvê-la ao seu legítimo dono. Porém, descobrir quem é o verdadeiro dono é o verdadeiro desafio, pois muitas pessoas estão atrás dessa estatueta, apesar de ela aparentar ser apenas uma quinquilharia sem valor algum.
No caminho, Lemony se aventura em cabines abandonadas, mansões abandonadas, cafeterias abandonadas e bibliotecas semi-abandonadas. Ao longo desses lugares, o protagonista conhece várias pessoas, como irmãos taxistas que fazem viagens por "dicas" (uma tradução do inglês, onde "tip" pode significar tanto gorjeta quanto dica), uma aspirante a jornalista que escreve tudo o que acontece em sua máquina de escrever portátil, um irritante moleque mimado pelos pais e uma misteriosa garota que está em busca do seu pai. Agora, quais delas são amigas e quais são inimigas, o pequeno garoto Snicket terá que descobrir por si próprio.
Essa autobiografia autorizada, que é apenas a primeira de quatro, é ilustrada por Seth Little e apresenta uma outra face do autor do Dossiê Baudelaire e ajuda a entender (ou confundir) um pouco mais os (muitos) mistérios que não foram explicados em Desventuras em Série. Apesar do foco diferente, o estilo de escrita é bem parecido, e a leitura agrada tanto os voluntários que já são fãs do autor quanto os que (ainda) não sabem nada sobre CSC.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A vida da avenida


Ia e vinha
Sem sair do lugar
Apenas dava a passagem
Pra quem quisesse passar
Não fazia nada
Que valha a pena aqui mencionar
Nas horas vagas, se perguntava se a vida era só aquilo, que já conhecia.
Vivia na avenida.
Via ali a vida
mas deixava ela passar.
Não ia nem vinha.
Ficava ali,
parado,
olhando,
somente a esperar.

Filósofo não é aquele que pensa sobre a vida, mas aquele que escreve e publica seus pensamentos, ou pelo menos fala eles pra alguém.
Será que eu continuo sendo filósofo se ninguém ler o meu blog?
Este é o livro de novembro da parceria com a Companhia das Letras, mas que por um erro do correio só foi entregue na segunda semana de dezembro. Um mês e duas semanas depois de a editora ter enviado. Atraso a parte estava muito ansiosa por ler a nova série de Lemony Snicket. A escrita cheia de humor ácido, cenários improváveis do autor sempre me conquistou e aqui temos o primeiro livro de uma série autobiográfica que conta sua juventude e sua adesão a uma misteriosa organização. 

Lemony embarca com sua nova tutora, S. Theodora Markson, para a cidade de Manchado-Pelo-Mar. A cidade teve o mar drenado e tudo o que restou foram estradas lotadas de pedras e uma assustadora floresta de algas. A primeira missão de Lemony é na cidade, mas desde que entrou no carro com Theodora que ele sabe que isso foi a coisa errada a se fazer. E bater na porta da velha mansão também foi um erro. A Sra. Sally contratou-os para encontrar a estatueta da Fera Ressonante. Segunda ela a estatueta está em sua família a gerações e desapareceu da estante. Sally culpa os Mallahans e Theodora, a tutora de Lemony nem questiona os furos de sua história. É quando os dois parte para o roubo da estatueta que as coisas saem erradas. Tem alguma coisa errada acontecendo. Lemony consegue escapar de ser capturado pela polícia e ao cair na árvore certa ela conhece Ellington Feint, uma garota que pode ter muito mais a ver com o mistério da Fera Ressonante. Entre telefonemas misteriosos, perguntas erradas e respostas certas Lemony, Ellington, Moxie e até mesmo Theodora precisam descobrir o que está por trás da história da Fera Ressonante. Ela foi mesmo roubada ou sempre pertenceu aos Mallahan? E quem é esse misterioso homem que anda a ameaçar a todos?

A premissa é essa e a narrativa de Lemony Snicket é uma coisa. Ele é um daqueles raros escritores que podem escrever o que quiser dos maiores absurdos as piadas mais óbvias. Personagens caricaturados, diálogos cheios de duplo sentido e um cenário absurdo. Uma pequena cidade que teve ser mar drenado. Porque é a pergunta que qualquer pessoa faria não é mesmo? Mas não temos nada disso. Enquanto o jovem Snicket tenta resolver o mistério da Fera Ressoante ele tromba com mais perguntas sem respostas e um misterioso personagem que deve guiar a história pelos próximos livros da série. A narrativa tem um ritmo fluido, uma escrita rica e que desenvolve tanto a trama quanto os assuntos paralelos de forma rápida, sem muitas voltas, mas ainda assim intrigante. 

Uma das coisas de que mais gostei foi que apesar da tutora de Snicket ser uma anta, que não enxerga um palmo diante do nariz quando se trata de histórias mal contadas, ele não ficou preso a suas decisões como é normal quando tem um adulto em cena. Ele segue suas conclusões e deixa Theodora uma onça, mas consegue resolver o mistério com esperteza e um pouco de astúcia. Dos personagens secundários a mais interessante é Moxie. Filha do ex-dono de jornal da cidade. Ela é uma máquina de perguntas como toda boa jornalista. Espero ver os dois mais juntos nos próximos livros. A história encerra de forma satisfatória. Não vou mentir que esperava um pouco mais. Acabou ficando pontas abertas demais e para os curiosos como eu vai ser difícil esperar por respostas.

Leitura rápida, trama inteligente e instigante em um cenário extremamente criativo. Se for fã do autor ou se quer algo totalmente diferente do que está acostumado sugiro que leia o quanto antes. A edição da Seguinte é ótima. A capa é softouch e as ilustrações deram o toque final à história. Recomendado a todos que gostam de mistério, humor e um juvenil diferente de tudo o que você já leu se ainda não conhece os livros de Snicket. Imperdível. Leiam! Até mais!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Não sou perfeito.
Eu vou te machucar,
Mas (quase) nunca por querer. 
Eu tenho defeito.
Mas se você me perdoar
Eu (muito) vou te agradecer.

A vida é desse jeito.
Eu vou sempre melhorar
Para (tentar) nunca te perder.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

toque toque toque

"Disse o mais tolo: Felicidade não existe.
O intelectual: Não no sentido lato."

Se a felicidade for um período na sua vida, esse período é a infância.
Mas a felicidade não é um período. A felicidade nunca é contínua, porque a vida não é constante.
A vida não é homogênea, tem um monte de caroços no meio.

A felicidade é o nome dos pequenos pontos de alegria
Felicidade é o nome do pico. O pico alto, pequeno, quase inalcançável, mas necessário. E é sempre o pico que chama mais atenção em uma paisagem.

Felicidade é quando o momento é interessante o suficiente pra te distrair da tristeza generalizada que é a realidade.
O segredo para a felicidade é saber quando esse momento acabou. E ir dormir logo em seguida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"Como anda a vida?" Você quer mesmo saber? A vida é um oceano. Por isso, é impossível eu te responder "como anda a vida". Eu posso falar das ondas, das tempestades, dos corais, dos arrecifes, dos tubarões, das baleias, dos peixes abissais e das das simpáticas anêmonas, posso falar dos barcos e submarinos, das conchas, dos caranguejos e das estrelas-do-mar e dos vários tipos de algas que eu não vou chegar nem perto de te responder como vai o oceano. Eu só posso te dizer como é que tá a superfície dele. E a superfície tá bem calma, muito obrigado.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O canto dos pássaros


Eu acho que o lugar preferido dela era a varanda de casa. Se pudesse ir para qualquer lugar do mundo, ela escolheria a varanda. Não, ela escolheria a África, mas eu segundo lugar ficaria a varanda. É claro que era uma bela varanda. Era bem arejada, e tinha uma vista para um pequeno bosque. Eu não sei o que ela tanto olhava para o bosque. Às vezes eu ia até ela, colocava os braços em sua cintura e ficava olhando o bosque também, mas depois de alguns minutos já ficava entediado. Eram sempre as mesmas árvores, as mesmas folhas, a mesma coisa. Às vezes, ela ficava tão mesmerizada pelo movimento que o vento dava aos galhos que nem percebia que eu colocava os pés sobre a sacava de madeira (algo que, em qualquer outra ocasião, faria com que ela gritasse comigo).
Havia dias em que ficávamos horas naquela varanda, eu lendo um livro ou trabalhando, e ela só apreciando a vista. A rotina dela parecia monótona, mas ela não parecia se in comodar. Chegava do trabalho, regava as flores - rosas e delicadas - e ia observar o bosque. No verão, dava um mergulho na piscina, mas sempre voltava para admirar o bosque.
Nos finais de semana de inverno, quando não estava muito quente, nós tirávamos o dia para explorar o bosque. Eu ia com o meu tênis preto, e ela prendia o cabelo. Dizia que era para não atrapalhar a visão. Em uma dessas excursões, nós fizemos um pique-nique em uma clareira. Ela pasou a manhã inteira preparando a cesta. Escolheu a melhor garrafa de vinho, fez sanduíches e outras guloseimas. No outro dia, estávamos cheios de picadas de insetos no corpo, mas valeu a pena.
Um dia, ela veio até mim e contou a notícia: ela estava grávida. Com o tempo vieram mais dois. Foi o fim das caminhadas tranquilas a dois, foi o fim da casa silenciosa e das incontáveis horas em que ela ficava observando o bosque, e eu ficava observando ela. Quando as crianças crescerssem um pouco, nós iríamos levá-las até o bosque, e teríamos um pouco mais de paz. Mas por enquanto, o canto dos pássaros havia sido substituído por um som ainda mais precioso: a risada de criança.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Janeiro, mês de Jano,
deus grego das escolhas.
Janeiro, começo do ano,
hora de fazer promessas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Tenho medo da palavra amor. Não tenho medo de amar, não tenho medo de ser amado. Não tenho medo do sentimento. Não tenho medo do significado. Tenho medo da palavra. Não sei falá-la, não sei ouvi-la, não sei adequá-la à situação. Não sei o quando, nem o onde, nem o para quem.
Ou talvez saiba, mas tenha medo de descobrir.

O viajante sobre o mar de névoa


“O mundo é fantástico” suspirou, apoiado em seu bastão. “O mundo é único a cada instante, e diferente para cada pessoa. Olhe essa névoa. Ela nasce e desaparece a cada segundo, e muda de forma a cada piscar de olhos. Olhe essas montanhas. Grandes e rígidas, vão ficar por aí por mais dezenas de gerações. As duas, juntas, fazem desse momento único. Fazem desse momento um momento especial para ficar na memória.”
Ele olhou para os lados.
“Eu estou no topo da montanha. Estou no topo do mundo. Estou no máximo que vou chegar. Esse é o meu melhor, esse é o melhor que a minha montanha tem a oferecer. Não é o cume. Não precisa ser o cume para ser o melhor. De nada adianta um cume cercado de árvores para aquele que só quer admirar a paisagem e enxergar longe.”
Girou o pé esquerdo no chão, sentindo o solo duro.
- Que horas são? - disse em voz alta para ninguém ouvir.
Tirou o relógio do bolso, e quando levantou novamente o rosto, a paisagem já havia mudado. Novas árvores se revelavam diante de seus olhos. Uma visão nova e única a cada segundo que passava.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Acompanhar as aulas acabou sendo mais fácil do que eu esperava. Minha tendência natural a passar a maior parte do tempo no meu quarto, lendo, me deu uma grande vantagem sobre a média dos alunos de Culver Creek. (…)
E também prestava atenção às aulas, mas, naquela manhã de quarta-feira, quando o Sr. Hyde começou a dizer que, para os budistas, todas as coisas estavam interligadas, eu me peguei olhando pela janela. Estava observando o morro arborizado e em suave declive para além do lago. E, vistas dali, da sala do Sr. Hyde, as coisas realmente pareciam interligadas. (…) Então eu ouvi meu nome e sabia que estava encrencado.
“Sr. Halter”, disse o Velho. “Estou aqui forçando os meus pulmões em benefício da sua instrução. E, no entanto, algo lá fora parece ter chamado a sua atenção de uma maneira que eu não fui capaz de fazer. Por favor, me diga: o que descobriu de tão interessante lá fora?” (…)
“Bem, é que eu estava olhando pela janela, sabe, olhando para o morro e estava pensando que bem, as árvores e a floresta, como o senhor estava dizendo antes…”
O Velho, que obviamente não tolerava digressões em voz alta, me interrompeu. “Vou pedir ao senhor que se retire da sala, Sr. Halter, para que possa ir até lá e descobrir a relação entre as bem-árvores e a sabe-floresta. E amanhã, quando estiver pronto para levar essa aula a sério, será bem-vindo.”

[…]

No dia seguinte, o sr. Hyde me pediu para esperar depois da aula. De pé diante dele, eu me dei conta, pela primeira vez, de quanto seus ombros eram encurvados, e ele me pareceu, de repente, triste e meio velho.  “Você gosta dessa aula, não gosta?”, perguntou.
“Sim, senhor.”
“Você tem a vida inteira para meditar sobre o conceito budista da interligação.” Ele falava como se tivesse escrito e memorizado cada frase e, agora, estivesse lendo. “Mas enquanto olhava pela janela, perdeu a oportunidade de explorar o preceito budista igualmente interessante que diz que devemos prestar atenção em todos os aspectos da nossa vida cotidiana, que devemos realmente prestar atenção. Preste atenção na aula. E depois, quando ela acabar, preste atenção lá fora”, ele disse maneando a cabeça na direção do lago e além.
“Sim, senhor.”
(Quem é Você, Alasca? Págs. 39-40, 51)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Singela confusão


"Quem quer acha um jeito, quem não quer acha uma desculpa."

Quem sabe tá bom do jeito que tá.
Quem sabe não tem como melhorar.
Quem sabe seja melhor não arriscar.
Quem sabe eu deva deixar pra lá.

Me convenço a ser inesperado
mas nada sai conforme planejado
Se não mudo a mira não mudo o tiro
Se não decido o alvo, onde eu miro?

Será sempre assim confusa a vida
Ou simples, complicada pela gente?
Às vezes duvido que há uma saída

É incerto que não sei o que sinto:
Se árvore ou apenas semente...
Há um refúgio nesse labirinto.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Pré-vestibular comunitário

O vestibular é um dos maiores obstáculos para quem quer ingressar no Ensino Superior. Muitas universidades exigem demais do candidato. Fórmulas decoradas, anos e fatos, e uma redação excelente. Mas por mais esforçado e inteligente que seja o aluno, sem uma preparação adequada, ele não consegue vaga no curso desejado. Algumas famílias podem se dar ao luxo de pagar um Ensino Médio numa escola particular de qualidade, ou, se isso não for suficiente, um ou mais anos de cursinho para melhor preparar seu filho. Mas nem todas as pessoas podem gastar tanto dinheiro assim, e apesar de serem inteligentes, não conseguem tirar uma nota boa em um vestibular.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Razões para utilização do horário de verão

O horário de verão foi criado para economizar energia. Ele se baseia no fato de que, nas regiões mais afastadas da Linha do Equador, a duração do dia varia durante o ano. Ou seja, no verão, o sol nasce mais cedo e se põe mais tarde. Ao contrário, no inverno o sol nasce mais tarde e se põe mais cedo. O horário de verão consiste em adiantar o relógio uma hora durante um período do ano. Assim, as pessoas passam a acordar mais cedo, e consguem aproveitar melhor a luz do sol. Mas como isso funciona?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guerra e Paz ao vivo

A viagem para o Memorial da América Latina, em São Paulo, foi dia 6 de março. O ônibus saiu de Itajubá de manhã, e chegou no Memorial da América Latina as 10:30. A turma tirou uma foto na frente da escultura "Mão" de Oscar Niemeyer, que tem sete metros de altura. A escultura representa uma mão com sangue escorrendo no formato do mapa da América Latina.
A turma foi separada em três grupos, e cada um deles entoru no salão onde estavam os painéis acompanhado de um guia. O painel Paz estava mais próximo da entrada, o painel Guerra estava de frente para ele. Em uma das laterais havia uma série de retroprojetores, iluminando a parede oposta a eles, entre os dois painéis.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Humano de menos

Você é humano, droga! Você é um ser humano! Você sabe o que isso significa? Isso significa que você não é uma pedra. Você não é uma planta. Você não é um prédio, um pedaço de papel ou um cavalo. Você é um ser humano! Você tem um cérebro capaz de compreender o universo, e mãos capazes de torná-lo mais belo.
Você tem pernas para andar, correr, pular, brincar. Você tem olhos para ver as coisas como elas são e ouvidos para ouvir o que está acontecendo, e uma boca para falar como você acha que elas deveriam ser.

Você é um ser humano, droga! Não é um tapete para os outros limparem o pé. Não é uma lixeira para receber qualquer coisa que atirem em você. Não é um cão para obedecer cegamente qualquer ordem que gritem para você. Você é muito mais do que isso. Você tem a capacidade de transformar o ambiente em que você vive.

Você é um ser humano, droga! Você pode fazer arte! Uma pintura, um poema, um desenho rabiscado nas margens de uma revista ou no verso do extrato do banco. Você pode ler um livro, assistir um filme, ir para um lugar onde você nunca foi antes. Transformar desconhecidos em amigos! Fazer a vida virar uma coisa que vale a pena ser vivida!

Você é um ser humano, droga! Seja criado à imagem e semelhança de Deus ou no cume da evolução, você é mais do que um monte de átomos de carbono organizados belamente. Você tem capacidades que vão além do que você imagina. Mas você também tem um tempo para descobrir quais são essas capacidades. Então não desperdice o seu tempo fazendo as mesmas coisas sem graça dia após dia.

Você é um ser humano, droga! Você pode muito mais do que isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O caso dos brigadeiros

Esse texto é sobre uma das memórias mais tristes da minha infância, um dos momentos em que eu fui mais injustiçado em toda a minha vida. E o pior é que aconteceu em uma festa de aniversário.

Dizem que festas de aniversário são momentos felizes em que amigos e família se reúnem para celebrar a vida da pessoa aniversariante. Só dizem, porque em todo aniversário, sempre dá alguma coisa errada. Basta reunir um grupo suficientemente grande de pessoas que se conheçam e, invariavelmente, algo vai sair completamente oposto ao planejado. E quando é festa de criança é ainda pior, porque quando uma começa a chorar, desencadeia-se uma avalanche. Sempre dá alguma coisa errada. Sempre.
Esse triste fato em particular se passou em uma tarde gostosa na escola. Era aniversário de algum dos meus tantos colegas que eu não me lembro nem do nome nem da cara. Tinha aquela mesa cheia de brigadeiros convidativos, deliciosos. Mas, é claro, tinha que esperar até depois do parabéns. Maldita proibição do parabéns.
Depois de assoprar as velinhas, aquela muvuca. Pega bolo, pega doce, pega bala. Então eis que me ocorre uma ideia genial. Se eu pegar apenas um brigadeiro, eu não vou sair de perto da mesa. Vou continuar aqui fazendo parte dessa bagunça, e atrapalhando as outras pessoas. Agora, se eu pegar uns três ou quatro brigadeiros (doces que eu iria pegar de uma maneira ou de outra) eu posso sair de perto da mesa e me deliciar em paz, enquanto eu deixo outras pessoas pegarem bolo e doce. Perfeito.
Coloco o plano altruísta em execução. Estendo a palma da mão e coloco dois pares de doces nela. Mal eu ia sair da mesa, ouço o pito inquisidor: “Mateus, que coisa feia! Não pode pegar tantos brigadeiros, tem que pegar um de cada vez! Pode devolver esses aí e sentar na mesa.”
Nunca me senti tão injustiçado. Nesse ponto minha memória se turva. Não lembro se tentei explicar minha lógica infalível para a professora de mente fechada, ou se simplesmente obedeci à ditadora como um peão sem livre-arbítrio. Só sei que, olhando para trás, me contento em saber que era uma criança inteligente com ideias originais.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

No céu

-Mas... isso aqui não tem nada a ver com o que me falaram na igreja...
-É, eu sei - disse Deus. - Eu fiz todas as religiões serem mais ou menos erradas. Uma tem uns probleminhas aqui, outra tá ruim dali...
-Hum... E porquê?
-Porque sempre ia ter alguém que iria discordar dos outros. Se eu fizesse uma religião certa, todas as outras seriam erradas, e não ia dar certo. Quando vocês viessem pra cá ia dar muita discussão. Então eu fiz todas erradas.
-Mas isso não é ruim?
-De maneira alguma. No final, dá tudo na mesma. Ajudar o próximo, ser bom, blá blá blá. Sempre a mesma ladainha. Só que cada um precisa de um incentivo diferente.
-Saquei.
-Em alguns casos nem é uma promessa de uma praia do Caribe. Eles tem uma epifania só de ler Harry Potter!
-Jura?
-É! E alguns nem precisam de incentivo, sabe, ou nem adiantaria dar incentivo, porque eles iriam ignorar. E é até melhor, porque aí eles servem de exemplo pros outros pensarem e respeitarem.
-Interessante... - disse o homem, espantado com tudo aquilo - mas, vem cá, quando eu ganho as minhas asas?
-Ih, rapaz, você tem muito o que aprender ainda.