domingo, 19 de fevereiro de 2012

Humano de menos

Você é humano, droga! Você é um ser humano! Você sabe o que isso significa? Isso significa que você não é uma pedra. Você não é uma planta. Você não é um prédio, um pedaço de papel ou um cavalo. Você é um ser humano! Você tem um cérebro capaz de compreender o universo, e mãos capazes de torná-lo mais belo.
Você tem pernas para andar, correr, pular, brincar. Você tem olhos para ver as coisas como elas são e ouvidos para ouvir o que está acontecendo, e uma boca para falar como você acha que elas deveriam ser.

Você é um ser humano, droga! Não é um tapete para os outros limparem o pé. Não é uma lixeira para receber qualquer coisa que atirem em você. Não é um cão para obedecer cegamente qualquer ordem que gritem para você. Você é muito mais do que isso. Você tem a capacidade de transformar o ambiente em que você vive.

Você é um ser humano, droga! Você pode fazer arte! Uma pintura, um poema, um desenho rabiscado nas margens de uma revista ou no verso do extrato do banco. Você pode ler um livro, assistir um filme, ir para um lugar onde você nunca foi antes. Transformar desconhecidos em amigos! Fazer a vida virar uma coisa que vale a pena ser vivida!

Você é um ser humano, droga! Seja criado à imagem e semelhança de Deus ou no cume da evolução, você é mais do que um monte de átomos de carbono organizados belamente. Você tem capacidades que vão além do que você imagina. Mas você também tem um tempo para descobrir quais são essas capacidades. Então não desperdice o seu tempo fazendo as mesmas coisas sem graça dia após dia.

Você é um ser humano, droga! Você pode muito mais do que isso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O caso dos brigadeiros

Esse texto é sobre uma das memórias mais tristes da minha infância, um dos momentos em que eu fui mais injustiçado em toda a minha vida. E o pior é que aconteceu em uma festa de aniversário.

Dizem que festas de aniversário são momentos felizes em que amigos e família se reúnem para celebrar a vida da pessoa aniversariante. Só dizem, porque em todo aniversário, sempre dá alguma coisa errada. Basta reunir um grupo suficientemente grande de pessoas que se conheçam e, invariavelmente, algo vai sair completamente oposto ao planejado. E quando é festa de criança é ainda pior, porque quando uma começa a chorar, desencadeia-se uma avalanche. Sempre dá alguma coisa errada. Sempre.
Esse triste fato em particular se passou em uma tarde gostosa na escola. Era aniversário de algum dos meus tantos colegas que eu não me lembro nem do nome nem da cara. Tinha aquela mesa cheia de brigadeiros convidativos, deliciosos. Mas, é claro, tinha que esperar até depois do parabéns. Maldita proibição do parabéns.
Depois de assoprar as velinhas, aquela muvuca. Pega bolo, pega doce, pega bala. Então eis que me ocorre uma ideia genial. Se eu pegar apenas um brigadeiro, eu não vou sair de perto da mesa. Vou continuar aqui fazendo parte dessa bagunça, e atrapalhando as outras pessoas. Agora, se eu pegar uns três ou quatro brigadeiros (doces que eu iria pegar de uma maneira ou de outra) eu posso sair de perto da mesa e me deliciar em paz, enquanto eu deixo outras pessoas pegarem bolo e doce. Perfeito.
Coloco o plano altruísta em execução. Estendo a palma da mão e coloco dois pares de doces nela. Mal eu ia sair da mesa, ouço o pito inquisidor: “Mateus, que coisa feia! Não pode pegar tantos brigadeiros, tem que pegar um de cada vez! Pode devolver esses aí e sentar na mesa.”
Nunca me senti tão injustiçado. Nesse ponto minha memória se turva. Não lembro se tentei explicar minha lógica infalível para a professora de mente fechada, ou se simplesmente obedeci à ditadora como um peão sem livre-arbítrio. Só sei que, olhando para trás, me contento em saber que era uma criança inteligente com ideias originais.