terça-feira, 15 de março de 2016

No laboratório...

No laboratório...
-Ué. Não são nem meio dia ainda. Esse relógio tá errado.
-Ele não tá errado. Ele tá parado mesmo.
-Ué, e porque vocês não consertam ele?
-Porque ele não tá estragado. Você não prestou atenção no que eu falei? Ele tá só parado.
-E um relógio parado não é um relógio estragado?
-Não.
-Não?
-Não. O que tá estragado não cumpre a sua função. E o relógio cumpre perfeitamente a sua função.
-Claro que não! Ele não mostra a hora certa!!
-Mostra sim. Duas vezes por dia ele está tão certo quanto o relógio do seu celular, talvez até mais.
-...e pra que vocês querem um relógio que só acerta duas vezes por dia?
-Pra lembrar a gente que, mesmo que um experimento dê o resultado esperado, não quer dizer que a nossa hipótese como um todo está certa. Se até o relógio parado acerta de vez em quando, que dirá nossa hipótese que ninguém sabe se vai funcionar ou não. O relógio fica aí pra lembrar a gente que, se a gente não repetir o experimento, ele não vale muita coisa. Por um ponto de dados, passam infinitas retas. Por dois, passam infinitas curvas. E só lá depois do terceiro que a gente pode começar a ter alguma certeza.

-Caramba.
-Pois é.
-Uau.
-Mas não é só isso.
-Ah não?
-Você logo de cara olhou o relógio e falou que ele estava estragado. Sendo que você nem sabia para quê a gente usava o relógio. Se você não sabe qual a função de uma coisa, pra que ela de fato é usada, você não pode sair apontando o dedo falando que ela está certa ou não. Agora que você sabe pra que serve esse relógio específico nesse ambiente específico, você ainda acha que ele está estragado?
-Pra falar a verdade acho sim.
-Porque você tem uma ideia de como os relógios devem funcionar, o que eles devem fazer. E qualquer coisa que saia do que você espera, pra você, não serve. Mas na vida, na ciência, não é assim. A mesma coisa pode servir pra várias funções diferentes. Em algumas ela provavelmente vai estar errada: você não pode usar um martelo pra trocar uma lâmpada. Mas você pode usar um martelo como peso de papel, pra nivelar uma mesa, até como lenha para uma fogueira se precisar. O uso depende da necessidade. Imagina se um físico entra aqui e fala que a gente está errado por usar o modelo atômico diferente do que ele usa? Mas poxa, se o modelo que eu uso funciona tão bem, pra que que eu vou usar outro mais complicado? Imagina se eu chego pra um arquiteto ou um astrônomo e falo que ele não pode usar o modelo geocêntrico pra calcular onde o sol vai estar ao longo do dia? Eles vão rir da minha cara. Ninguém precisa usar a relatividade pra calcular a velocidade de um caminhão - quer dizer, a não ser que esse caminhão esteja a uma velocidade próxima à da luz, que nesse caso acho que ele já ultrapassou em muito o limite de velocidade de qualquer estrada.

-Uau. Mal entrei no laboratório e já aprendi muita coisa.
-Pois é.
-Mas, vem cá, vocês já tinham pensado nisso quando colocaram esse relógio aí?
-Na verdade não. Ele funcionava certinho até uns dois meses atrás. Mas aí ninguém teve a vontade e o tempo de colocar pilhas novas, e a gente só deixou ele ali.
-É, eu acho que quando a pessoa quer, ela consegue inventar explicação pra qualquer coisa, por menos sentido que essa coisa faça. E consegue inventar uma justificativa mirabolante e totalmente nada a ver para justificar até o que claramente está errado e não tem o menor motivo pra estar ali.
E o estudante de doutorado olhou de novo para a sua conclusão no artigo, olhou pro visitante, de volta pro artigo, e foi fazer mais um experimento.

(15/03/2016)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Quando for postar vários prints de uma conversa/tópico que tem uma sequência necessária pra entender, bote número em cada foto
Quando for fazer post de pessoa/animal de estimação desaparecido, coloque cidade e data da última vez que foi visto
Quando for falar algum dado numa discussão de internet em que vc tenha tempo, não custa nada checar no Google se é aquilo mesmo e, pra completar, botar a fonte ou pelo menos falar qual site/pesquisa que comprova aquilo
Quando for compartilhar alguma imagem, tirinha, texto, vídeo, cite os créditos de quem fez a obra. Isso ajuda o autor a ser reconhecido pelo seu trabalho e ajuda as pessoas a procurarem outras coisas do autor
Quando usar uma palavra incomum, estrangeira, ou uma sigla que as pessoas que vão ler talvez não entendam, tente explicar ou traduzir ela para suas ideias serem passadas de maneira mais eficiente. E o mesmo vale para palavras que tem mais de um sentido, tipo "discriminação" (você está falando de preconceito ou do sentido original de separar de acordo com as características?)
O objetivo da comunicação é passar ideias, e pontuação ajuda demais nisso. Se der pra se fazer entender sem ponto nem vírgula okei. se não der, bota os pontinhos, vai
No mesmo sentido, se você está usando palavras que pra você querem dizer uma coisa e pra outra pessoa querem dizer outra coisa, considere a opção de usar sinônimos, ou evitar a palavra que gera confusão
Se for botar um link que direciona pra um PDF que baixa sozinho, pelo menos avise. E tem como usar o cache do Google, pra evitar que todo mundo tenha que baixar ele
O cache do Google também serve praquelas matérias da Folha quando você já esgotou o limite de matérias por mês, e praqueles sites tipo Óia que é melhor nem entrar pra não gerar ibope
Tenha cuidado com estatísticas e porcentagens
Tente ler a matéria, e não só a manchete, e
Cheque se a notícia é do Sensacionalista ou o G17.
Ou não, né, cada um é livre pra fazer o que quiser.
Mas nunca deixe de questionar aquilo que considera verdade.

8 min

quinta-feira, 10 de março de 2016

As cotas e a ampla concorrência na UFV


Em agosto de 2012 foi sancionada a Lei 12.711, conhecida popularmente como Lei das Cotas. A partir de então, todas as universidades federais devem reservar 50% de suas vagas para pessoas que estudaram o Ensino Médio em escola pública. Desses 50%, metade é reservada para pessoas que tenham renda baixa, e uma proporção é reservada para pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas.

A aplicação da lei foi gradual. A cada ano, mais 12,5% das vagas totais foram destinadas às ações afirmativas. Assim, 2016 foi o primeiro ano em que, obrigatoriamente, 50% das vagas de todas as universidades federais foram destinadas a estudantes de Ensino Médio em escola pública.

Assim sendo, temos cinco categorias de inscrição:
  • MODALIDADE 1 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, AUTODECLARADOS pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta mensal igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário mínimo per capita.
  • MODALIDADE 2 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, que NÃO se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta mensal igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário mínimo per capita.
  • MODALIDADE 3 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, AUTODECLARADOS pretos, pardos ou indígenas, independente da renda familiar.
  • MODALIDADE 4 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, que NÃO se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, independente da renda familiar.
  • MODALIDADE 5 – Candidatos de AMPLA CONCORRÊNCIA que serão classificados somente de acordo com as notas obtidas no ENEM 2015.
De acordo com o Edital do processo seletivo da UFV de 2016, os estudantes que optarem pelas vagas reservadas não irão concorrer pelas vagas da Ampla Concorrência (AC). Isso foi uma decisão do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão - CEPE da UFV.
"os candidatos que optarem pelas vagas reservadas, conforme a Lei 12.711, de 2012, NÃO concorrerão concomitantemente às vagas de ampla concorrência. Cada uma das Modalidades de Vagas (...) terá lista própria de classificação" - Item 4.4 do Edital do processo seletivo da UFV de 2016

"os estudantes que optarem por concorrer às vagas reservadas para cotas, não concorrerão às demais vagas (livre concorrência), exceto no caso de esgotamento da lista de espera para essas vagas (livre concorrência)" - Ata 514/2015 do CEPE
Um estudante que se inscreveu na modalidade 1 pode ser chamado pela modalidade 2, e um que se inscreveu na modalidade 3 pode ser chamado pela modalidade 4. Mas nenhum estudante que tiver se inscrito nas modalidades 1, 2, 3 ou 4 poderá ser chamado pela modalidade 5, que é a Ampla Concorrência.

Dessa maneira, uma pessoa que poderia passar pela Ampla Concorrência não entra na universidade simplesmente porque ela escolheu uma cota ao invés de escolher a AC. Ou seja, uma pessoa que tirou uma nota inferior pode ser aceita na universidade justamente por não ter direito a nenhuma cota.

A universidade adota como principal ou único parâmetro a nota que o candidato consegue tirar. Assim sendo, quanto maiores as notas dos ingressantes, melhor para a universidade. Seria de se esperar, então, que o modelo de inscrição que garantisse as maiores notas fosse o mais desejado - desde que cumprindo a legislação vigente, de reserva de 50% das vagas para estudantes de escola pública. Pensando nesse objetivo, existem outros modelos aplicados por universidades que são mais democráticos e interessantes, tanto para as pessoas cotistas quanto para a universidade.

Um exemplo é o modelo da UFG, que segue as seguintes regras:
"I – primeiramente, serão preenchidas as vagas da ampla concorrência por candidatos egressos de escola pública ou não, conforme a ordem de classificação dos estudantes; e
II – após o preenchimento dessas vagas, serão preenchidas as vagas reservadas na forma da Lei nº 12.711 e obedecendo-se ao disposto no item 9 deste Edital."
(Edital do processo seletivo da UFG de 2016)
Assim, garante-se que as pessoas que entrarem na universidade serão aquelas com as maiores notas.

Para ilustrar, imagine que haja um curso com 40 vagas, e a proporção de vagas destinadas a autodeclarados negros, pardos ou indígenas seja de 50%. 20 vagas seriam destinadas a AC, cinco para a categoria 1, cinco para a 2, cinco para a 3 e cinco para a 4. João tirou a nota de 620 no ENEM e se inscreveu na cota 4. Henrique tirou a nota 590 e se inscreveu também na cota 4. Pedro tirou a nota 610 e se inscreveu na modalidade AC.
Na categoria 4, a nota de corte foi de 630, e as 5 pessoas que ficaram na frente de João se matricularam. Na AC, a nota de corte foi de 612, e 19 pessoas se matricularam. Na segunda chamada, Pedro continua concorrendo a vaga que sobrou na AC, mas João não tem direito a concorrer a essa vaga, justamente por ter optado por se matricular na cota.

Ao fazer o cotista escolher entre a cota a qual ele tem direito e a AC, porque a AC tem mais vagas, arriscamos perder estudantes que tiraram notas boas. Porque, se nesse cenário João tivesse escolhido a modalidade AC, então Pedro não teria sido chamado na AC, já que as vagas teriam sido preenchidas, mas Henrique teria sido chamado na modalidade 4, mesmo tendo uma nota inferior à de Pedro.

Poderíamos pensar que esse cenário foi favorável no sentido social, já que ambos João e Henrique, que tinham direito a cota, conseguiram entrar na universidade. Mas forçando João a arriscar na AC, corremos o risco de que João nem consiga entrar na universidade, enquanto que, se ele puder se inscrever na cota 4 e mesmo assim concorrer na AC, teremos as maiores chances de ter a maior quantidade de estudantes com direito a cota e as maiores chances de ter os alunos com maiores notas.

Referências:
  • Lei Federal Nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, "Lei das Cotas" http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm
  • Decreto Federal Nº 7.824, de 11 de outubro de 2012 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/Decreto/D7824.htm
  • UFV: EDITAL DO PROCESSO SELETIVO PARA INGRESSO NOS CURSOS PRESENCIAIS DE GRADUAÇÃO DO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2016. 6 de janeiro de 2016.  (Cache do Google)
  • UFV: ATA Nº 514/2015 – CONSELHO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO. 24 de novembro de 2015 (Cache do Google
  •  UFG: PROCESSO SELETIVO SiSU 001/2016. EDITAL Nº 001/2016 de 04 de janeiro de 2016 (Cache do Google)