terça-feira, 13 de setembro de 2016

“Deixando o X para trás na linguagem neutra de gênero”, por Juno

Texto retirado de: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:1OYwnQhZbXMJ:partidopirata.org/deixando-o-x-para-tras-na-linguagem-neutra-de-genero-por-juno/+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-b-ab

Texto retirado de: https://naobinario.wordpress.com/2014/11/01/deixando-o-x-para-tras-na-linguagem-neutra-de-genero/

Para complementar um dos pontos do artigo, que trata da acessibilidade de textos que utilizam “X”, “@” e outros marcadores, gostaríamos de lembrar que pessoas com as mais variadas dificuldades de leitura e processamento de dados visuais também acabam não podendo ler e compreender esses textos, assim como no caso de pessoas que necessitam de leitores de tela. Uma experiência visual interessante e instrutiva para pessoas não-disléxicas pode ser esta página: https://geon.github.io/programming/2016/03/03/dsxyliea. A partir dos relatos de uma amiga disléxica, uma pessoa resolveu tentar mostrar como pessoas na mesma condição se relacionam visualmente com textos; é necessária uma dose considerável de foco e esforço para qualquer leitura, e o uso de “X” e outras coisas certamente dificulta ainda mais a vida dessas pessoas.
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Sobre esta proposta
(Quando aqui falo do “X”, estou falando de construções como “todxs”, “meninxs”, “queridx”, “bonitx”. Embora eu vá me focar no X, porque é o mais utilizado, o mesmo vale para outras utilizações como @, *, entre outras.)
Desde que escrevi esse texto, o que faz um bocado de tempo, muitas pessoas reagiram de diversas formas. Uma boa parte, muito apegada à gramática, não gostou nenhum pouco da proposta porque ela realmente propõe alterações que brincam com o que hoje se considera “certo” ou a maneira “adequada” de falar. Obviamente, ao propor novas formas de fazer linguagem uma pessoa estará rompendo com uma determinada norma. Nunca foi minha intenção trabalhar dentro dos limites da gramática normativa.
Entendemos que muitas pessoas simplesmente não querem se dar ao trabalho. Este é um caso para ser julgado entre os indivíduos. Se você não gostaria de fazer um esforço por outra pessoa, é uma questão ética entre você e o restante da sociedade. Muitas vezes na vida tomamos a decisão de não nos importarmos. Uma pessoa possui certas questões da construção da identidade dela, da forma como ela está tentando se entender, que requerem esforço da parte dos outros. Quando esta solidariedade é suprimida, resta a marginalização daquela pessoa na direção de ter de se guetificar junto com as outras que são como elas, que é o que costuma acontecer com as pessoas trans no geral, seja por não quererem lhes tratar de forma neutra ou por insistirem em dizer ele onde seria ela ou ela onde seria ele.
A linguagem neutra é uma ferramenta para universalizar a possibilidade de superar esta questão de forma que resolva a questão, ela não é uma imposição moral. A imposição moral está nas demandas que fazemos enquanto um povo, e existe hoje a demanda para que as pessoas trans sejam respeitadas e consideradas sujeitos de sua própria liberdade, autonomia e identidade. Muitas pessoas no caminho não irão se dispor a ajudar, e algumas irão se dispor apenas parcialmente. No grosso, é raro que as pessoas se adequem bem à linguagem neutra a não ser que elas consigam entender isto como um exercício calmo, paciente. Isto envolve muitas irritações no processo de aprendizagem porque as pessoas não estão acostumadas a se importar com estas questões.
A linguagem neutra não é um exercício constante, o exercício está em aprendê-la, dispor-se a tentar, e não em exercê-la. A linguagem neutra não é mais difícil do que aprender qualquer outra forma de falar, ela basta ser aprendida, e então poderá ser usada fluentemente. Ela é um conjunto curto e muito rápido de entender, basta desenvolver a prática, o costume. Mas por mais simples e fácil que se torne depois que a pessoa efetivamente tenta, o processo de tentar acompanha um certo desprezo, um certo desdém pela proposta. Nesse sentido a grande maioria das pessoas desistem de serem tratadas de forma neutra. Assim cria-se o conceito da “fase”.
Nós chamamos de “fase” muitas coisas que, através da pressão social, forçamos as pessoas a abandonarem. Por exemplo, uma identidade feminina, que uma pessoa adota, e depois de um tempo volta a apresentar-se da forma como era antes. A isto muitas vezes não se deve simplesmente o fato de “passou” ou “foi uma fase”, mas que foi insuportável tentar, e que foi mais fácil desistir. Nós constantemente desistimos daquilo que queríamos por causa das dificuldades. Não é difícil com pessoas que possuem maiores ambições na construção de suas identidades, que ousam querer ser algo considerado pela maioria como absurdo, irracional, anti-científico.
Eu já pedi às pessoas que me tratassem de forma neutra, depois pedi que o fizessem no feminino, hoje em dia digo-lhes que tanto faz, que façam como preferirem. Acaba que a pessoa não consegue se sentir confortável com nada, e perdura um sentimento constante de alienação em relação ao gênero e todas as suas categorias. O acesso negado a todas elas. A incompatibilidade com qualquer coisa. É um fato de uma sociedade onde nossos potenciais estão extremamente castrados. As pessoas não participam desse sistema por má fé, não negam o tratamento neutro porque querem o pior (ao menos não todas), mas elas acabam executando esta ordem, a ordem de manter as bases do nosso mundo, assim como nós o conhecemos, exatamente como estão.
Para aprender linguagem neutra e usá-la basta querer. Ela é útil por diversos motivos. Se você não gostaria de usá-la, você pode usar o X ou pode falar como preferir. A questão é que neste processo você estará decidindo se afastar de um determinado grupo de pessoas, e que estas pessoas estão extremamente isoladas devido à decisão constante da maioria de fazer isso. Através deste mecanismo não só as pessoas trans estão excluídas, no desemprego, nos modernos circos dos horrores da mídia de massa, mas todo o povo oprimido. Tem a ver com a forma como a cultura e a opressão exercida pelas elites se atravessa e molda nossa visão de mundo. Quanto mais solidariedade, maior será o poder do povo. Venha de onde vier.
Peculiaridades das pessoas não-binárias
Pessoas trans* frequentemente possuem preferências por formas de se falar que estão desalinhadas com aquela designada a elas. Na maioria, mulheres trans* preferirão serem tratadas no feminino, homens trans* no masculino e muitas pessoas não-binárias de forma neutra, ou no masculino ou feminino de forma alinhada ou não à designada a elas no nascimento.
Nos três problemas enumerados acima, podemos notar que as pessoas trans* não-binárias possuem peculiaridades ao lidar com todos eles.
Em (1), não existe uma passabilidade para pessoas não-binárias. Nunca aparentam-se não-binárias porque ninguém jamais presumirá, ao olhar para como se vestem, falam, isto é, “como são” que não são “nenhum dos dois”. Sempre será presumido que uma pessoa é homem ou mulher. Desta forma, é virtualmente impossível que alguém “acerte” estas marcações, exceto nas raras vezes que o fizerem não porque percebem serem pessoas não-binárias, mas porque não conseguem decidir se as encaixam como homens ou como mulheres. Dessa forma, estarão sempre à margem das soluções que indicam às pessoas que simplesmente “chutem” de acordo com como a pessoa se apresenta.
Desde a publicação deste texto originalmente, foi levantado que algumas pessoas podem ser dar a entender serem não-binárias pela sua aparência. Este entendimento é falso, faz sentido somente ao observador. Androginia não é sinônimo de não-binariedade, uma pessoa cis (que não é trans) pode muito bem ser extremamente andrógina e uma pessoa trans pode muito bem aparentar ser do gênero considerado “oposto” ao dela, bem como pode ser andrógina também.[1]
Em (2), não existe nenhum país no mundo onde pessoas não-binárias possam efetivamente, de forma regulamentada, serem reconhecidas em seus documentos. É muito mais complicado que uma pessoa não-binária consiga ser reconhecida nas burocracias do Estado, das instituições, de universidades, empregos, etc como completamente fora das opções do que como uma delas, ainda que essa posição seja contestada. Frequentemente o caso é não o de quem é expulso de uma categoria, mas o de quem não possui uma categoria.
Algumas pessoas levantaram que há países no mundo onde isto é sim possível. Estou ciente destas notícias e agradeço se alguém quiser encaminhar-me quaisquer novas notícias, mas se você ler o acima disposto verá que não, não há país no mundo onde as pessoas trans não-binárias possam de forma regulamentada e desburocratizada fazer isso. Assim como no Brasil isto não é realidade nem para homens e mulheres trans. Precisar da aprovação de um juiz ou de um parecer médico não é satisfatório.
Em (3), os gêneros das pessoas não-binárias costumam ser muito mais difíceis de explicar às pessoas, de forma que “não ser”, “ser nenhum dos dois”, ou ser qualquer um deles de forma não-normativa (bigênera, multigênera, pangênera, etc) será algo encarado como uma invenção, uma tolice, etc, porque estas experiências são apagadas, e estão sempre na margem. É certamente mais complicado explicar a alguém que você não é nem homem, nem mulher do que explicar que você é homem ou mulher, apesar de não assim terem te designado no nascimento.
Estas dificuldades demonstram no geral como o sistema está orientado no sentido de preservar uma estrutura rígida, de dois gêneros. Todas as práticas que retornam a estas afirmações são dificuldades encaradas porque organizamos o mundo ao redor destas duas categorias.
Por todos esses motivos, é importante perceber que construções neutras de gênero são importantes para tornar o mundo mais vivível às pessoas trans* não-binárias, e que elas ocupam um local importante nesta discussão sobre neutralidade e sobre o uso da linguagem demarcada. Em nossos cotidianos, as marcações de gênero e as tentativas de torná-las neutras ou melhores frequentemente falham nesse quesito específico, como em “todas e todos”, “homens e mulheres”, “senhoras e senhores”, “masculino e feminino”, “todos/as”, “srs(as)” etc.
Se você recebeu esse texto de uma pessoa não-binária que queria que você aprendesse como referir-se a ela: por favor, tenha empatia e não trate isto tudo com leviandade. Isto é importante e são pouquíssimas as pessoas que realmente se importam. Tente ao máximo que conseguir, não se acanhe em parar no meio da frase e pensar ou pedir ajuda, aprenda junto com a pessoa e aos poucos você pegará o costume e falará naturalmente com ela. Não é um bicho de sete cabeças e conjuntamente é possível que consigam aprender cada vez melhor.
Por que abandonar o X?
  1. O X não é acessível para leitores de tela. Pessoas com deficiência visual não conseguirão fazer programas de leitura de tela pronunciarem corretamente o texto.
  2. O X não torna as coisas mais fáceis de entender. Quanto mais simples e direta for a nossa linguagem, melhor poderemos nos fazer entender  Quando a intenção é fazer textos fáceis e didáticos, o X pode ser um constante entrave para quem está lendo.
  3. O X não é pronunciável. Nós não podemos, em voz alta, usar o X. Isso é problemático especialmente para pessoas trans* não-binárias, para quem essa vocalidade é necessária no dia-a-dia.
  4. O X não transformará a linguagem. Se o X é restrito à língua escrita, então ele não irá alterar a forma como falamos! Isso significa que ele não influenciará como, no dia-a-dia, nos referimos às pessoas, e que no fim das contas, ele não alterará nem a linguagem escrita, perpetuando-a como binária, e a forma neutra como restrita a determinados contextos “feministas”, “lgbt”, “trans”, “de esquerda”.
Como falar de forma neutra sem o uso do X?
Tenha calma e aprenda no processo
Não pense que você vai ler o que está descrito abaixo e pegar o jeito de uma hora para a outra. Conforme você se pegar no meio das frases, conversar com a pessoa, se você e ela se ajudarem, a linguagem neutra vai se tornando hábito. Pense nos exemplos abaixo como formas de começar e de elaborar, e construa a linguagem neutra de forma natural.
Junto com a outra pessoa, vá falando de forma neutra, se deixe corrigir sem estresse quando necessário, e aos poucos aprenderá a falar de forma neutra. É uma questão de prática.
Utilize generosamente termos neutros como “pessoa”, “indivíduo”, etc. para retirar o gênero marcado diretamente. Coloquialmente, qualquer palavra serve.
Ela partiu > A pessoa partiu / essa pessoa partiu
A casa dela > A casa da pessoa
Todas as presentes > Todas as pessoas presentes
Quantas temos aqui? > Quantas pessoas temos aqui?
As presentes cujas bolsas ficaram no jardim > As pessoas presentes cujas bolsas ficaram no jardim
Boa tarde a todas > Boa tarde a todas as pessoas / boa tarde a vocês / boa tarde
Elas avançaram na competição > As pessoas (ou “estas pessoas”) avançaram na competição
Ele nunca vai embora > Essa pessoa nunca vai embora
Sua namorada > A pessoa com quem você namora / A pessoa que namora com você
Minha > A pessoa minha irmã
Minha irmã > A pessoa minha irmã
Tua irmã > A pessoa sua irmã / A pessoa que é sua irmã
Nossa irmã > A pessoa nossa irmã
(Nota: O português provavelmente não oferece uma forma melhor de fazer isso com palavras como a acima. O que podemos fazer é literalmente sugerir a desgenerificação ao propor que “irmã” se refere a “pessoa”. Como a construção não é usual, ela já impõe um motivo.)
Aquelas que ganharam estão liberadas para ir > Quem ganhou pode ir / Aquelas pessoas que ganharam estão liberadas para ir
Ao invés de usar um pronome, repita o nome ou suprima o pronome (melhor)
Ariel estava aqui ontem e desde então ela foi embora > Ariel estava aqui ontem e deste então Ariel foi embora / e desde então foi embora
Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a Ariel / teria lhe dito
A casa dela > A casa de Ariel
O Rio a inspira profissionalmente > O Rio inspira Ariel profissionalmente
Suprima artigos e pronomes desnecessários
A Ariel > Ariel
com a Ariel > com Ariel
Ela partiu > Ariel partiu
Eu fiquei com a Ariel > Eu fiquei com Ariel
Como pintora ela conquistou muito dinheiro > Pintando, conquistou muito dinheiro
Logo ela explicará seus motivos > Logo explicará seus motivos / Logo Ariel explicará seus motivos
Prefira alternativas neutras como “de” (ao invés de da/do) e “lhe” (ao invés de a/o)
da Ariel > de Ariel
Essa carteira é da Ariel > Essa carteira é de Ariel
Se eu quisesse ficar com Ariel, teria dito a ela > Se eu quisesse ficar com Ariel, teria lhe dito
A casa da Ariel > A casa de Ariel
Utilizar a voz passiva e o gerúndio, entre outras mudanças, são formas interessantes de desgenerificar. Do manual para uso não-sexista da linguagem:
“S. Semântico: Todos os trabalhadores poderão ir ao jantar com as suas esposas
Alternativa: O pessoal poderá ir ao jantar acompanhado.
S. Semântico: Os estudantes não poderão receber visitas femininas nos
dormitórios.
Alternativa: Não se permitem visitas nos dormitórios
[…]
Por exemplo, podemos dizer: O nível de vida em São Paulo é bom
Em lugar de: Os paulistanos têm um bom nível de vida
Podemos dizer: O pessoal docente da Universidade protestou por…
Em lugar de: Os professores da Universidade protestaram por…”
Mude a estrutura dos verbos na frase:
Você é muito requisitada? > Te requisitam muito?
Você está toda molhada > Você se molhou totalmente
Você está cansada? > Você se cansou?
Você é baiana? > Você é da Bahia?
Você está linda > Você está uma pessoa linda / Que lindeza você está / Sua roupa está linda / Seu corpo é lindo
Você está registrada > Eu te registrei / seu registro está feito
Manual para uso não sexista da linguagem
Para uma referência mais extensiva sobre linguagem neutra em português, recomendo o material “Manual para o uso não sexista da linguagem”, de Paki Venegas Franco e Julia Pérez Cervera pela UNIFEM. Clique para baixá-lo. O manual deve ser lido com um olhar crítico, possui passagens onde faz abordagens teóricas sobre gênero que talvez não sejam as mais adequadas, mas pragmaticamente falando tem um bocado de exemplos e dicas úteis.
Notas:
[1]. A variedade de configurações possíveis no fim transforma o próprio conceito de “passabilidade” em algo muito limitado. A questão não é como nos veem, mas principalmente como nos tratam. Configurar-se como sujeito de uma opressão na sociedade não tem a ver simplesmente com te verem de uma determinada forma (como começamos a pensar se nos deixamos levar muito pela política identitária, quer ela se pretenda “feminista radical” ou não), mas como suas condições te forçam e limitam no sentido de como você vai conseguir ser visto. Neste sentido por exemplo a passabilidade muitas vezes é mediada pela classe. As opressões não existem separadamente, os sujeitos não são oprimidos por isto ou por aquilo, os sujeitos são oprimidos porque são entendidos como sujeitos a se oprimir. Delimitar um determinado “motivo” (por exemplo, “ser lido como homem”, “ter sido socializado como homem”) sem se perguntar sobre o sem-número de outras questões que marginalizam, segregam e matam alguém no máximo será capaz de criar correntes de pensamento e militância política que, fadadas a serem só isto, correntes políticas sectárias, no serão um fardo a ser arrastado por motores mais transformadores que visem realmente enfrentar as formas de marginalização, todas elas, que incidem sobre as pessoas.

domingo, 4 de setembro de 2016

Sugestão de vídeos - Desenvolvimento cognitivo de crianças e bebês (TED Talks)

TED Talks: Desenvolvimento cognitivo, moral e linguístico de bebês
Crianças são cientistas por natureza. São curiosas, fazem perguntas, elaboram e testam hipóteses, querem explorar o mundo a sua volta. E os bebês não são diferentes: antes mesmo de desenvolver a fala (e talvez principalmente antes disso) eles estão constantemente e ativamente aprendendo e estimulando os seus lindos cérebros. No reino animal, quanto mais longa a infância do filhote, maior a inteligência que ele consegue alcançar. E a infância humana talvez seja a maior de todas. Por isso é interessante entender os estágios de desenvolvimento, cada um diferentes do outro, ligados por um contínuo de descobertas. Até qual idade um bebê consegue aprender uma língua como sendo sua materna? Quando uma criança descobre que outras pessoas podem ter gostos e crenças diferentes da sua? Quando surge a moral, a noção de culpa e de certo e errado?
Essas três palestras do TED abordam o desenvolvimento cognitivo de bebês e crianças e nos ensinam como os jovens seres humanos aprendem tão rápido como o mundo ao seu redor funciona. E, entendendo que somos aprendedores por natureza, podemos ampliar um pouco mais nossa noção do que somos capazes.


"Deduzir os motivos, as crenças, os sentimentos dos entes queridos e de estranhos é um talento natural para os humanos. Mas como o fazemos? Aqui, Rebecca Saxe partilha um fascinante trabalho de laboratório que desvenda como é que o cérebro pensa sobre os pensamentos das outras pessoas - e julga as suas acções, dando pistas de como a moral se desenvolve ao longo da infância."

"Patrícia Kuhl compartilha achados impressionantes sobre como os bebês aprendem uma língua atrás da outra, ao escutar os seres humanos ao seu redor e calcuar estatísticas dos sons que eles realmente precisam saber. Inteligentes experimentos de laboratório (e scanners cerebrais) mostram como bebês de 6 meses usam raciocínios sofisticados para entender seu mundo, e o que isso significa para as pessoas bilíngues e para as línguas em extinção."


Como os bebês aprendem tanto com tão pouco e tão rápido? Em uma palestra divertida e cheia de experimentos, a cientista cognitiva Laura Schulz mostra como os pequenos fazem decisões com um senso de lógica apurado, digno dos cientistas adultos, bem antes de poderem falar.


(Lista elaborada por Mateus Figueiredo em set/2016)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma's impeachment in a nutshell

Pardon me if I talk too much, but...

I think an important part of the story is the CGU. It is a part of the government that investigates corruption. Dilma's government gave a lot of freedom to the CGU and to the Federal Police to investigate corruption crimes.
Many corruption crimes were then discovered. Then, there was this Carwash Operation (Lava Jato), which was basically making corrupt politicians pay for their acts, getting people to trials, legally busting into peoples houses, etc..
In a leaked audio, two politicians talking say that "with Dilma there, it will be impossible to stop the Lava Jato. The easiest is to put Michel Temer there instead".
So, according to this leaked audio, there was a massive scheme, with all houses and the judiciary, to remove Dilma and replace her with her vice-president, Temer.

But they needed an excuse. So they found out that Dilma did fiscal manouvers (nicknamed "pedalada fiscal"). Basically, when Brazil government didn't have the money to pay for social programs (like Bolsa Família, a improved version of the food stamps), she asked the state banks to pay first, and then the government paid back the banks.

According to some, this is not a crime. To others, it is. And to others, it is a crime that legally should lead to an impeachment.

Many politicians asked for Dilma's impeachment process to be opened. But there is this major senator, called Eduardo Cunha. Cunha is from PMDB Party, the party that always supports whoever is in power. (So Dilma is from PT, the Worker's Party.) PMDB and PT were allies. Cunha was an ass, but they were allies. And Cunha, as the speaker of the house (if I'm not mistaken), just didn't accept any impeachment processes.

But everything changed when PT decided to try to remove Cunha from his spot at the Ethics Committee. Then Cunha fired back, and opened the process. The lower house (Câmara dos Deputados) said ay, the Senate said ay, Temer became acting president, some days passed by.

In his first weeks of government, Temer did awful things. One of them was to end the CGU. Anti-Dilma protests called for the end of corruption, and the first thing that Temer did was to end the organ that investigated corruption.

This week was the final trial. Dilma stood there for 10 hours or more making her defense and answering questions, but in the end she got impeached anyway.

And now, probably, the Carwash Operation is over. So are workers rights, public education, public healthcare, and many other things.

tl;dr: they said it was about corruption, but they are even more corrupt.
[x]

terça-feira, 15 de março de 2016

No laboratório...

No laboratório...
-Ué. Não são nem meio dia ainda. Esse relógio tá errado.
-Ele não tá errado. Ele tá parado mesmo.
-Ué, e porque vocês não consertam ele?
-Porque ele não tá estragado. Você não prestou atenção no que eu falei? Ele tá só parado.
-E um relógio parado não é um relógio estragado?
-Não.
-Não?
-Não. O que tá estragado não cumpre a sua função. E o relógio cumpre perfeitamente a sua função.
-Claro que não! Ele não mostra a hora certa!!
-Mostra sim. Duas vezes por dia ele está tão certo quanto o relógio do seu celular, talvez até mais.
-...e pra que vocês querem um relógio que só acerta duas vezes por dia?
-Pra lembrar a gente que, mesmo que um experimento dê o resultado esperado, não quer dizer que a nossa hipótese como um todo está certa. Se até o relógio parado acerta de vez em quando, que dirá nossa hipótese que ninguém sabe se vai funcionar ou não. O relógio fica aí pra lembrar a gente que, se a gente não repetir o experimento, ele não vale muita coisa. Por um ponto de dados, passam infinitas retas. Por dois, passam infinitas curvas. E só lá depois do terceiro que a gente pode começar a ter alguma certeza.

-Caramba.
-Pois é.
-Uau.
-Mas não é só isso.
-Ah não?
-Você logo de cara olhou o relógio e falou que ele estava estragado. Sendo que você nem sabia para quê a gente usava o relógio. Se você não sabe qual a função de uma coisa, pra que ela de fato é usada, você não pode sair apontando o dedo falando que ela está certa ou não. Agora que você sabe pra que serve esse relógio específico nesse ambiente específico, você ainda acha que ele está estragado?
-Pra falar a verdade acho sim.
-Porque você tem uma ideia de como os relógios devem funcionar, o que eles devem fazer. E qualquer coisa que saia do que você espera, pra você, não serve. Mas na vida, na ciência, não é assim. A mesma coisa pode servir pra várias funções diferentes. Em algumas ela provavelmente vai estar errada: você não pode usar um martelo pra trocar uma lâmpada. Mas você pode usar um martelo como peso de papel, pra nivelar uma mesa, até como lenha para uma fogueira se precisar. O uso depende da necessidade. Imagina se um físico entra aqui e fala que a gente está errado por usar o modelo atômico diferente do que ele usa? Mas poxa, se o modelo que eu uso funciona tão bem, pra que que eu vou usar outro mais complicado? Imagina se eu chego pra um arquiteto ou um astrônomo e falo que ele não pode usar o modelo geocêntrico pra calcular onde o sol vai estar ao longo do dia? Eles vão rir da minha cara. Ninguém precisa usar a relatividade pra calcular a velocidade de um caminhão - quer dizer, a não ser que esse caminhão esteja a uma velocidade próxima à da luz, que nesse caso acho que ele já ultrapassou em muito o limite de velocidade de qualquer estrada.

-Uau. Mal entrei no laboratório e já aprendi muita coisa.
-Pois é.
-Mas, vem cá, vocês já tinham pensado nisso quando colocaram esse relógio aí?
-Na verdade não. Ele funcionava certinho até uns dois meses atrás. Mas aí ninguém teve a vontade e o tempo de colocar pilhas novas, e a gente só deixou ele ali.
-É, eu acho que quando a pessoa quer, ela consegue inventar explicação pra qualquer coisa, por menos sentido que essa coisa faça. E consegue inventar uma justificativa mirabolante e totalmente nada a ver para justificar até o que claramente está errado e não tem o menor motivo pra estar ali.
E o estudante de doutorado olhou de novo para a sua conclusão no artigo, olhou pro visitante, de volta pro artigo, e foi fazer mais um experimento.

(15/03/2016)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Quando for postar vários prints de uma conversa/tópico que tem uma sequência necessária pra entender, bote número em cada foto
Quando for fazer post de pessoa/animal de estimação desaparecido, coloque cidade e data da última vez que foi visto
Quando for falar algum dado numa discussão de internet em que vc tenha tempo, não custa nada checar no Google se é aquilo mesmo e, pra completar, botar a fonte ou pelo menos falar qual site/pesquisa que comprova aquilo
Quando for compartilhar alguma imagem, tirinha, texto, vídeo, cite os créditos de quem fez a obra. Isso ajuda o autor a ser reconhecido pelo seu trabalho e ajuda as pessoas a procurarem outras coisas do autor
Quando usar uma palavra incomum, estrangeira, ou uma sigla que as pessoas que vão ler talvez não entendam, tente explicar ou traduzir ela para suas ideias serem passadas de maneira mais eficiente. E o mesmo vale para palavras que tem mais de um sentido, tipo "discriminação" (você está falando de preconceito ou do sentido original de separar de acordo com as características?)
O objetivo da comunicação é passar ideias, e pontuação ajuda demais nisso. Se der pra se fazer entender sem ponto nem vírgula okei. se não der, bota os pontinhos, vai
No mesmo sentido, se você está usando palavras que pra você querem dizer uma coisa e pra outra pessoa querem dizer outra coisa, considere a opção de usar sinônimos, ou evitar a palavra que gera confusão
Se for botar um link que direciona pra um PDF que baixa sozinho, pelo menos avise. E tem como usar o cache do Google, pra evitar que todo mundo tenha que baixar ele
O cache do Google também serve praquelas matérias da Folha quando você já esgotou o limite de matérias por mês, e praqueles sites tipo Óia que é melhor nem entrar pra não gerar ibope
Tenha cuidado com estatísticas e porcentagens
Tente ler a matéria, e não só a manchete, e
Cheque se a notícia é do Sensacionalista ou o G17.
Ou não, né, cada um é livre pra fazer o que quiser.
Mas nunca deixe de questionar aquilo que considera verdade.

8 min

quinta-feira, 10 de março de 2016

As cotas e a ampla concorrência na UFV


Em agosto de 2012 foi sancionada a Lei 12.711, conhecida popularmente como Lei das Cotas. A partir de então, todas as universidades federais devem reservar 50% de suas vagas para pessoas que estudaram o Ensino Médio em escola pública. Desses 50%, metade é reservada para pessoas que tenham renda baixa, e uma proporção é reservada para pessoas autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas.

A aplicação da lei foi gradual. A cada ano, mais 12,5% das vagas totais foram destinadas às ações afirmativas. Assim, 2016 foi o primeiro ano em que, obrigatoriamente, 50% das vagas de todas as universidades federais foram destinadas a estudantes de Ensino Médio em escola pública.

Assim sendo, temos cinco categorias de inscrição:
  • MODALIDADE 1 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, AUTODECLARADOS pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta mensal igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário mínimo per capita.
  • MODALIDADE 2 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, que NÃO se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta mensal igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário mínimo per capita.
  • MODALIDADE 3 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, AUTODECLARADOS pretos, pardos ou indígenas, independente da renda familiar.
  • MODALIDADE 4 – Candidatos que cursaram o ensino médio integralmente em escolas públicas brasileiras, que NÃO se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas, independente da renda familiar.
  • MODALIDADE 5 – Candidatos de AMPLA CONCORRÊNCIA que serão classificados somente de acordo com as notas obtidas no ENEM 2015.
De acordo com o Edital do processo seletivo da UFV de 2016, os estudantes que optarem pelas vagas reservadas não irão concorrer pelas vagas da Ampla Concorrência (AC). Isso foi uma decisão do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão - CEPE da UFV.
"os candidatos que optarem pelas vagas reservadas, conforme a Lei 12.711, de 2012, NÃO concorrerão concomitantemente às vagas de ampla concorrência. Cada uma das Modalidades de Vagas (...) terá lista própria de classificação" - Item 4.4 do Edital do processo seletivo da UFV de 2016

"os estudantes que optarem por concorrer às vagas reservadas para cotas, não concorrerão às demais vagas (livre concorrência), exceto no caso de esgotamento da lista de espera para essas vagas (livre concorrência)" - Ata 514/2015 do CEPE
Um estudante que se inscreveu na modalidade 1 pode ser chamado pela modalidade 2, e um que se inscreveu na modalidade 3 pode ser chamado pela modalidade 4. Mas nenhum estudante que tiver se inscrito nas modalidades 1, 2, 3 ou 4 poderá ser chamado pela modalidade 5, que é a Ampla Concorrência.

Dessa maneira, uma pessoa que poderia passar pela Ampla Concorrência não entra na universidade simplesmente porque ela escolheu uma cota ao invés de escolher a AC. Ou seja, uma pessoa que tirou uma nota inferior pode ser aceita na universidade justamente por não ter direito a nenhuma cota.

A universidade adota como principal ou único parâmetro a nota que o candidato consegue tirar. Assim sendo, quanto maiores as notas dos ingressantes, melhor para a universidade. Seria de se esperar, então, que o modelo de inscrição que garantisse as maiores notas fosse o mais desejado - desde que cumprindo a legislação vigente, de reserva de 50% das vagas para estudantes de escola pública. Pensando nesse objetivo, existem outros modelos aplicados por universidades que são mais democráticos e interessantes, tanto para as pessoas cotistas quanto para a universidade.

Um exemplo é o modelo da UFG, que segue as seguintes regras:
"I – primeiramente, serão preenchidas as vagas da ampla concorrência por candidatos egressos de escola pública ou não, conforme a ordem de classificação dos estudantes; e
II – após o preenchimento dessas vagas, serão preenchidas as vagas reservadas na forma da Lei nº 12.711 e obedecendo-se ao disposto no item 9 deste Edital."
(Edital do processo seletivo da UFG de 2016)
Assim, garante-se que as pessoas que entrarem na universidade serão aquelas com as maiores notas.

Para ilustrar, imagine que haja um curso com 40 vagas, e a proporção de vagas destinadas a autodeclarados negros, pardos ou indígenas seja de 50%. 20 vagas seriam destinadas a AC, cinco para a categoria 1, cinco para a 2, cinco para a 3 e cinco para a 4. João tirou a nota de 620 no ENEM e se inscreveu na cota 4. Henrique tirou a nota 590 e se inscreveu também na cota 4. Pedro tirou a nota 610 e se inscreveu na modalidade AC.
Na categoria 4, a nota de corte foi de 630, e as 5 pessoas que ficaram na frente de João se matricularam. Na AC, a nota de corte foi de 612, e 19 pessoas se matricularam. Na segunda chamada, Pedro continua concorrendo a vaga que sobrou na AC, mas João não tem direito a concorrer a essa vaga, justamente por ter optado por se matricular na cota.

Ao fazer o cotista escolher entre a cota a qual ele tem direito e a AC, porque a AC tem mais vagas, arriscamos perder estudantes que tiraram notas boas. Porque, se nesse cenário João tivesse escolhido a modalidade AC, então Pedro não teria sido chamado na AC, já que as vagas teriam sido preenchidas, mas Henrique teria sido chamado na modalidade 4, mesmo tendo uma nota inferior à de Pedro.

Poderíamos pensar que esse cenário foi favorável no sentido social, já que ambos João e Henrique, que tinham direito a cota, conseguiram entrar na universidade. Mas forçando João a arriscar na AC, corremos o risco de que João nem consiga entrar na universidade, enquanto que, se ele puder se inscrever na cota 4 e mesmo assim concorrer na AC, teremos as maiores chances de ter a maior quantidade de estudantes com direito a cota e as maiores chances de ter os alunos com maiores notas.

Referências:
  • Lei Federal Nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, "Lei das Cotas" http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm
  • Decreto Federal Nº 7.824, de 11 de outubro de 2012 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/Decreto/D7824.htm
  • UFV: EDITAL DO PROCESSO SELETIVO PARA INGRESSO NOS CURSOS PRESENCIAIS DE GRADUAÇÃO DO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2016. 6 de janeiro de 2016.  (Cache do Google)
  • UFV: ATA Nº 514/2015 – CONSELHO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO. 24 de novembro de 2015 (Cache do Google
  •  UFG: PROCESSO SELETIVO SiSU 001/2016. EDITAL Nº 001/2016 de 04 de janeiro de 2016 (Cache do Google)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Deus, o sofrimento, e a humanidade como um Ovo

Tem gente que fala "olha só o mundo. olha que perfeição essa distância entre o Sol e a Terra. olha que maravilha de paisagem. que mundo lindo e perfeito que Deus criou pra gente" usando isso como argumento pra falar que Deus existe.

Eu acho que esse deve ser um dos piores argumentos pra defender a existência de Deus de todos.

Porque o mundo não é perfeito. Então se você acha que o mundo ser perfeito é mais um motivo pra acreditar que Deus existe, então esse motivo simplesmente não existe.

Muitas pessoas perguntam "porque Deus permite que o sofrimento existe?" Minha resposta padrão pra esse argumento (porque eu acredito que Deus existe) é que, com o sofrimento, com os problemas, com as imperfeições, a gente aprende. A gente aprende com os nossos erros. "mas porque Deus já não nos fez sabendo?" Porque quando a gente aprende por experiência própria, aprende muito mais. O conhecimento fica muito melhor guardado. E a memória da experiência é muito mais vívida do que a memória de ter lido isso em algum lugar ou ouvido alguém falar sobre isso.

Mas acho que a pergunta ainda é válida. Porque Deus permite que as pessoas sejam tão ruins umas com as outras? Porque Deus permite que catástrofes da natureza arruínem a vida de tantas pessoas? Porque tanta miséria, tanta mazela, tanta dor?

E porque as pessoas evoluíram pra ser tão ruins umas com as outras? (Porque, é claro, eu também acredito na Evolução). Porque temos tanto preconceito com o que é diferente e ganhamos tanto prazer com a violência, ao fazer e ao testemunhar? Porque evoluímos pra seguir o líder, fazer o que sempre fizemos, ao invés de nos abrir para o novo?

Mas talvez não seja nem Deus nem a Evolução. Talvez seja só a nossa cultura. Vivemos numa época de preconceitos (quanto tempo dura essa época, eu não sei. Talvez ela já dure o quê, uns 100 mil anos?). Mas a cada tantos anos o alvo desse preconceito muda. Ameríndios, irlandeses, protestantes, bruxas, ateus, mulheres, homossexuais, transexuais, feministas, comunistas, muçulmanos, cristãos, negros. Em lugares diferentes, diferentes pessoas diferentes são as perseguidas. E a gente vive - e 'prospera' - num sistema que permite essas perseguições. E quando a gente percebe quão idiota é um preconceito - porque não deixar brancos se casarem com negros?? porque não deixar negros usarem o mesmo bebedouro que os brancos?? - outro entra em evidência, que muito provavelmente sempre tenha estado ali, mas que não chamava tanta atenção - porque eles não gostavam das pessoas transexuais?? porque insistiam em usar um nome que não era o delas??

Eu vejo que o mundo não é perfeito. Tem muitos problemas - alguns criados por Deus, outros criados pela Evolução, outros criados pela nossa cultura e sociedade - mas tem muitos avanços, se comparado com o mundo em que vivíamos antes (e alguns retrocessos. como assim eles deixaram a empresa poluir um rio inteiro e ficar tanto tempo sem punição???)

Mas eu vejo que cada vez mais gente tem noção desses problemas, e noção que eles são problemas. E uma coisa que eu tenho na cabeça, desde que eu li a história dO Ovo (recomendo), é que a gente não pode melhorar a vida das pessoas que viveram antes da gente, e a gente tem um bom alcance pra ajudar as pessoas que vivem ao mesmo tempo que a gente, apesar de limitado, mas a gente tem uma possibilidade quase que infinita de ajudar todas as pessoas que vão vir depois da gente. E se somos todos da mesma espécie humana, se somos todos companheiros nessa aventura que é a vida, a mesma alma reencarnada várias e várias vezes em corpos diferentes através do tempo e do espaço, então a gente pode tentar ajudar a nós mesmos.

Acho que eu continuo com a minha resposta de porque existe sofrimento. Pra ser um desafio. Pra gente aprender. Pra gente ter que pensar e repensar sobre a nossa vida, as nossas ações, a nossa humanidade. Como se todo esse universo fosse só uma preparação, uma gestação para a próxima fase. Muita gente se preocupa, achando que o mundo vai acabar e que a humanidade vai se extinguir. Mas eu acho que a gente não vai ter essa dádiva de ir para a próxima fase enquanto não conseguir resolver os problemas dessa aqui.