quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pela janela do quarto, tudo enquadrado

"Bom dia", digo automaticamente ao porteiro. "Bom dia, meu caro homem", responde, tão mecanicamente quanto eu, com apenas um sorriso amarelo de diferença.
Chamo o elevador. A porta abre, e o ascessorista sem rosto me eleva até o nono andar. Tiro o casaco e me jogo no sofá. Oito e trinta e sete no meu celular. Desligo a televisão após uma rápida sapeada pelos inúmeros canais, casa qual com seu apresentador de botox no rosto e um vazio no peito. De cada cinco canais, seis estavam nos comerciais: dois de cerveja, três de carro e outros dois de pasta de dente. O rádio é ligado. pelo menos não toca funk no rádio, mas o rap é um lixo quase igual. Desliso os dedos pela prateleira e escolho um CD de Milton Nascimento.
Pego a câmera digital e a penduro no pescoço. Destranco a janela, e a escancaro. Nem sei porque eu sempre a tranco. Quase nunca chove, não há real necessidade dela ficar fechada. Mas dia após dia eu a fecho e passo a chave, só para poder abri-la no outro, e sentir a baforada de ar quente de fora do prédio para dentro da minha sala, passando pelo meu rosto. Escancaro a janela para ver cada vez de novo o rosto das já conhecidas e velhas amigas montanhas, de uma vez. Apago as luzes do apartamento, e apagaria também as da ruas, para melhor ver as estrelas, tão imutável companhia. Fito cada uma delas com paciência e calma, me perguntando se mais alguém está olhando para ela junto comigo. Minha imaginação vagueia.

Pouso os olhos num distante navio. Mal consigo ver as ondas se quebrando na praia, mas vejo o navio, que é tocado pelas mesmas ondas que as dezenas de turistas. "Eles não vão para casa nunca? Não sabem que horas são?"

Uma andorinha mergulha na minha frente e me tira do transe, levando minha atenção aos turistas na rua. Outras dezenas de visitantes, tirando fotografias de tudo. Assim como as singelas estrelas, eles nem imaginam que estão sendo observados.

Tiro uma foto da Lua e vou dormir.

domingo, 26 de junho de 2011

Sonho: Novela Mexicana

Era um belo dia de Sol para ficar ao ar livre. Eu estava sentado ao redor de uma mesa com uma prima de 3º ou 4º grau, daquelas que você só vê em casamentos e em festa de final de ano. Os outros dois lugares eram ocupados por amigas dessa minha prima, que devia ser uns 2 ou 3 anos mais velha que eu, e usava óculos escuros.
Nesse sonho, mais uma vez eu estava apaixonado, e mais uma vez era por uma pessoa desconhecida - uma das amigas da minha prima. O problema é que ela tinha namorado. Mas eu não iria desistir, eu iria lutar por ela.
Eu pedi ajuda pra minha prima, e ela me falou algumas coisas, e me deu um anel. Era completamente preto. Grudado no aro, havia algo que parecia um broche, com alguns detalhes em alto relevo.
-Vai lá e dá o anel pra Tati.
Eu olhei para as duas meninas desconhecidas.
-Qual delas é a Tati?
-Ah que você gosta, né, seu idiota!
-Ah tá.
Eu só estava esperando uma oportunidade de entregar o anel para ela. Mas aí eu comecei a pensar. Porque a minha prima estava me ajudando a conquistar ela, e até tinha me dado o anel? A amiga dela tem namorado! Será que... ela não deve gostar do namorado da amiga... Ou ela gosta demais do namorado da amiga. Caramba, ela só está me usando! Que babaca!
Aí eu acordei.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Fé e razão

Qual a relação entre fé e razão?


Fé e razão não são água e óleo. Podem até brigar de vez em quando, mas no final do dia vão dormir de mãos dadas.


Fé e razão não são motivo para discussão. Fé e razão, juntas, não são mais que uma faceta pouco interessante do indivíduo. Separadas, cada qual é interessantíssima. Cada uma afeta a vida do cidadão por um caminho diferente. Conhecimento, moral, sabedoria, verdade.


Qual é o sentido da vida? Se o seu objetivo nessa Terra for liberdade, poder fazer tudo o que quiser quando bem entender, nenhum desses dois caminhos te levará a ela. A fé te dirá o que não fazer, a razão te dirá por que não fazer. O resultado é o mesmo: você não fará o que vai te fazer mal.


O objetivo máximo na vida é a felicidade. E saber que a felicidade é saber respeitar os limites. Em questão de certo e errado, a fé é a voz da razão. Para chegar a uma conclusão por meio da lógica, você precisa ter alguma experiência a priori. Ou seja, você tem que se ferrar uma vez para não se ferrar mais. A fé te dá uma mãozinha: “cara, não faz isso que você vai se ferrar”.


Tanto fé quanto razão tem um objetivo em comum. Ambas querem descobrir a verdade por trás das coisas, o sentido e a razão de tudo, a resposta para a vida, o universo e tudo mais. Cada uma tem um método diferente. Mas não importa se você acredita que o universo foi criado em 7 dias ou surgiu em uma explosão; se o homem foi criado do barro ou a capacidade neural que temos surgiu através de milênios de mutações. O simples fato de você acreditar em um ou em outro não faz diferença. O que faz diferença é como isso vai afetar a sua vida.


Não é porque um livro te diz que tal coisa é certa ou tal coisa errada que você tem que acreditar piamente nela. Seja esse livro um texto argumentativo da internet ou a Bíblia, é preciso entender que aquilo foi escrito por alguém, para alguém, e por algum motivo. Não é porque as fábulas de Esopo não aconteceram de verdade que elas não podem mudar a vida de alguém. Uma lição de moral pode vir de um livro, um filme ou de uma música.


O mais importante é saber que o jeito de enxergar as coisas muda. Dinossauros não são dragões, a Terra não é o centro do Universo, ratos não brotam de camisas suadas. O que hoje é certo pode ser completamente errado amanhã. Por isso, não vale a pena discutir algumas coisas. Mais vale uma pessoa com um sorriso no rosto do que duas numa discussão.

96 páginas ou 300 giga bytes

O ser humano nasce como um caderno, completamente em branco, ou como um computador, já com o sistema operacional?



Dizem que se o cérebro humano fosse simples o suficiente a ponto de ser entendido, nós seríamos burros demais para poder entendê-lo. Mas mesmo assim, a curiosidade nos impulsiona, nos leva a fazer inúmeras perguntas, mesmo que algumas não tenham resposta.


De onde vem o talento? Como surge a personalidade? Os gostos, as vontades, o QI? Einstein nasceu gênio? Qualquer um pode ganhar o Nobel, ou o Oscar? Um enxadrista pode pintar um quadro, ou um jogador de futebol pode escrever um livro?


Não dá realmente para saber o que faz com que uma pessoa seja diferente da outra. Se as pessoas forem cadernos em branco, o que faz a diferença são as suas experiências. Um caderno vazio pode se transformar em qualquer coisa: um diário, um rascunho para um livro, um caderno de Física ou de Biologia. Cada página em branco tem mil desenhos dentro dela, que só precisam de um pouco de tinta (e um olhar criativo) para se tornarem realidade. Se as pessoas forem cadernos em branco, o que determina o caminho que elas vão seguir são as coisas e pessoas ao redor dela. Uma criança não aprenderia a fazer escolhas se alguém não ensinasse isso para ela.


Todos os computadores saem da fábrica iguais. Um mesmo sistema operacional, que permite que você rode uma série de programas. Mas a partir daí, é o usuário que controla o destino da máquina. Enquanto alguns se contentam com usar o Paint, outros querem o Photoshop. Os escritores usam o Word, os matemáticos usam o Excel, os empresários usam o Power Point. É claro que você pode baixar mais programas – você não pode querer passar a vida inteira sem evoluir – mas eles dependem do sistema básico.


Eu acho que cada um nasce com o seu punhado de sementes. Cada semente é uma coisa: saber dar conselhos, ter talento para trocar algum instrumento, manjar de matemática, ter boa memória, jogar futebol, praticar artes marciais, ler, escrever, desenhar. Essas sementes, essas possibilidades, são parte de quem nós somos. O que fazemos delas é o que define quem vamos ser. Ao longo da vida, essas sementes germinam, e vão gerando cada vez mais frutos. Mas não geram frutos se não estivermos lá para regá-las, adubá-las, protegê-las das pragas.


Todos podem ser poetas. Não é difícil achar duas palavras que rimem e montar alguns versos. Todos podem ser fotógrafos. Segurar firme e apertar um botão é tão rude que chega a ser engraçado ser chamado de vocação. Mas o que faz a diferença é a beleza, é a qualidade do produto. Esforço raramente substituí talento, e o talento é inato.


Se você não pode ter o dom que ama, ame o dom que tem. Não desperdice uma bela voz por que você acha que seria mais fácil escondê-la atrás da timidez. Um dom é um presente, que deve ser protegido e incentivado, que tem que ser usado da melhor maneira possível.


Um caderno tem o limite de 96 páginas, o computador tem o limite de 300 giga bytes. Se for para escolher, prefiro ser um computador.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

Grãos de areia

Olhe bem a sua volta. O que você vê? Um quarto, uma sala, um bar, uma biblioteca, um shopping. Quantas vezes você é menor do que esse ambiente? Muitas, provavelmente, principalmente se você for claustrofóbico. Pense quantas vezes o seu quarto é menor do que a sua casa. Quantas vezes a sua casa é menor do que a sua rua. Quantas vezes a sua rua é menor do que o seu bairro, que é menor que a sua cidade, que é menor do que o seu estado, que é menor do que o seu país, que é menor do que o seu planeta.