quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O caso dos brigadeiros

Esse texto é sobre uma das memórias mais tristes da minha infância, um dos momentos em que eu fui mais injustiçado em toda a minha vida. E o pior é que aconteceu em uma festa de aniversário.

Dizem que festas de aniversário são momentos felizes em que amigos e família se reúnem para celebrar a vida da pessoa aniversariante. Só dizem, porque em todo aniversário, sempre dá alguma coisa errada. Basta reunir um grupo suficientemente grande de pessoas que se conheçam e, invariavelmente, algo vai sair completamente oposto ao planejado. E quando é festa de criança é ainda pior, porque quando uma começa a chorar, desencadeia-se uma avalanche. Sempre dá alguma coisa errada. Sempre.
Esse triste fato em particular se passou em uma tarde gostosa na escola. Era aniversário de algum dos meus tantos colegas que eu não me lembro nem do nome nem da cara. Tinha aquela mesa cheia de brigadeiros convidativos, deliciosos. Mas, é claro, tinha que esperar até depois do parabéns. Maldita proibição do parabéns.
Depois de assoprar as velinhas, aquela muvuca. Pega bolo, pega doce, pega bala. Então eis que me ocorre uma ideia genial. Se eu pegar apenas um brigadeiro, eu não vou sair de perto da mesa. Vou continuar aqui fazendo parte dessa bagunça, e atrapalhando as outras pessoas. Agora, se eu pegar uns três ou quatro brigadeiros (doces que eu iria pegar de uma maneira ou de outra) eu posso sair de perto da mesa e me deliciar em paz, enquanto eu deixo outras pessoas pegarem bolo e doce. Perfeito.
Coloco o plano altruísta em execução. Estendo a palma da mão e coloco dois pares de doces nela. Mal eu ia sair da mesa, ouço o pito inquisidor: “Mateus, que coisa feia! Não pode pegar tantos brigadeiros, tem que pegar um de cada vez! Pode devolver esses aí e sentar na mesa.”
Nunca me senti tão injustiçado. Nesse ponto minha memória se turva. Não lembro se tentei explicar minha lógica infalível para a professora de mente fechada, ou se simplesmente obedeci à ditadora como um peão sem livre-arbítrio. Só sei que, olhando para trás, me contento em saber que era uma criança inteligente com ideias originais.

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