domingo, 1 de maio de 2011

Perfeito faremos direito o nó


Uma horinha apertado no ônibus, compatilhando o corredor com mochilas e caixas de patrulha, cantando músicas bobinhas, a maioria desconhecida para mim. O ônibus para. Uma porteira com três faixas coloridas marcam a entrada.


É sempre incrível chegar num lugar novo. Dá vontade de simplesmente sair correndo, sentir o vento na cara e os cheiros do lugar. Ir correndo, sem olhar para trás, sem se importar se os outros olham para você com desaprovação ou correm atrás. Infelizmente, a caixa de patrulha não deixou eu realmente sair correndo de uma vez. Não faz mal. Empilhamos as mochilas num canto, e eu não paro de olhar para os lados, ouvindo o som da correnteza ao longe.


Eu estou no meio do nada, me lembro de ter pensado. Todos os meus colegas estão em casam provavelmente dormindo, e eu aqui no meio do nada. Chega a ser engraçado. Acordei às 6 horas num feriado, pra ficar uma hora apertado em um ônibus e vir parar no meio do nada. Mas aí eu percebi que aquilo não era o meio do nada. Aquilo era o meu tudo. As montanhas, o céu azul, as árvores, a grama plana e uniforme. É assim que devia ser. A cidade é desnecessária. Isso aqui é que é real. O seu meio do nada é o meu centro de tudo. Cara, esses três dias vão ser perfeitos.


O primeiro dia foi de trabalho cansativo. Um trabalho que a maioria das pessoas passaria a vida sem saber que era cabível fazer: construir os banheiros. Duas escavadeiras, uma para a latrina e uma para cavar os buracos dos bambus; um esqueminha de onde colocar os bambus, sisal e toldo para as paredes. O resto, a gente tinha que se virar. "Sênior tem que ralar", foi o que me disseram. Bom, pode até ter demorado, mas até o fim do dia os dois estavam prontos. E quando a gente finalmente achou que ia ter um descanso, fomos montar as barracas.


Acabamos de montar as barracas, já tinha anoitecido e eu não tinha tomado banho. Se lavar num chuveiro improvisado com água de mina no frio já é complicado, ainda mais se tá de noite e vc tem que ficar procurando o sabonete no barro toda vez que você deixa ele cair. Mas no segundo dia eu já tava esperto: tomar banho bem antes do sol se por.


Eu passo pela ponte perto da escola, e nunca deixo de olhar para o horizonte. Cada dia o pôr do sol está mais bonito. Mas eu nunca imaginava que aquele rio barrento poderia me trazer tanta diversão, até o acampamento nos Freires. Só de ver a correnteza leve já era uma delícia, subir o rio foi ainda melhor. Foi difícil, sim, e complicado. Ficamos um bom tempo parados tentando descobrir como avançar (ainda bem que levamos a corda). Depois, um treinamento de orientação em cima de uma pedra. Tivemos que falar alto por causa do barulho da correnteza, mas deu para entender bem. Voltamos encharcados.


No terceiro dia, montamos o campo ao redor das barracas. De novo, nada além de vagas instruções do chefe, bambus que havíamos cortado no dia anterior, uma escavadeira (a outra tinha quebrado), um facão, uma marreta e bastante sisal. Depois de firmados os bambus, passamos sisal por eles (fazendo um X para ficar mais original), erguemos o portal (bem simples também) e a bandeira do ramo sênior (sem a flor de lís, só um pano roxo mesmo). O triste foi no final do dia, quando tivemos que, em 10 minutos, desmontar o que levamos algumas horas para concluir.


Os dias foram cansativos, e se você pensa que à noite nós dormimos cedo para uma boa noite de sono, não poderia estar mais enganado. Primeiro, porque seria impossível ir dormir sem dar uma boa olhada no céu estrelado e todo o firmamento sorrindo para você. No primeiro dia eu vi duas estrelas cadentes e um satélite, e no segundo, um outro satélite.


Mais tarde, depois da janta, fomos para uma caminhada noturna. Um pequeno trecho da estrada de terra, e depois entre dois pastos, até que nós chegamos numa ponte. Uma ponte que mal dava para uma pessoa, feita de cabo de aço e duas tábuas para pisar, uma do lado da outra. Até aí tudo bem, até a parte em que não tinha tábua de um lado e a ponte virava quase 45º - e o melhor: os chefes nunca tinham passado por ela antes. A primeira vez era aquela, de noite. Depois de atravessado o rio, subimos uma montanha para localizar o cruzeiro do Sul e passarmos o significado do nome (ele sempre fica no sul) para o resto da seção.


No último dia, entramos na água gelada. Alguns ficaram na hidromassagem natural criada pelas pedras, outros fizeram um castelo de areia numa ilhazinha no meio do rio. Uma lobinha pegou umas pedras verdes, bonitas, e outro lobinho foi enterrado na praia. Eu preferi ficar boiando, sendo levado pela correnteza, e depois repetir o processo. Mais tarde, saímos na margem do rio, e eu sozinho enchi um saco de lixo com garrafas PET, inseticidas, garrafas de óleo, arames, isopores e outras tralhas.


O Fogo de Conselho foi perfeito. Depois as esquetes, a canção da despedida. Não sabia cantar, mas deu para entender o espírito. Eu acho que sabia que não seria mais o mesmo depois daquele acampamento.


No último dia, corremos sem precisar. Mal acordamos, já fomos arrumar as mochilas, desmontar as barracas, derrubar os banheiros, tampar as latrinas e recolher os toldos (que quase não couberam na caixa de patrulha). O ônibus demorou, mas antes ele estar atrasado e termos que esperar uns 20 minutos do que adiantado e termos que esperar algumas horas até o próximo. A volta também foi recheada de músicas, dessa vez eu já conhecia algumas.


Não sei se existe esse termo, mas eu acho que no dia da volta - a Páscoa - eu devo ter ficado com um pouco de DPA - Depressão Pós-Acampamento - mas passou logo. Se o acampamento foi bom, voltar para a casa para a família foi tão bom quanto.


Pra que perder a esperança, se há tanto querer?
Bem cedo junto ao fogo tornaremos a nos ver.

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