quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Maya

(Trecho do livro Maya, de Jostein Gaarder)

— Deixemos tudo isso de lado, deixemos de lado os smokings e os banquetes, a maquiagem e os alfinetes de gravata, os depósitos bancários e os espelhos barrocos na lareira, deixemos de lado, quer dizer, tudo isso com que nos decoramos em contextos sociais, sobram-nos dois, dez anos ou, na melhor das hipóteses, algumas décadas de vida nesta Terra. Existem, pois, em geral, algumas perspectivas existenciais que dizem respeito a todos nós, embora falemos muito pouco delas. Proponho, portanto, que esta noite tentemos prescindir de nossos interesses e afazeres arbitrários, e nos concentremos em algo que diz respeito a nós todos. Certamente porque lembrei da conversa com Gordon na noite anterior, escapou-me:
— O Universo, por exemplo.
Só devo ter murmurado, porque John perguntou:
— O que disse esse senhor?
— Por exemplo, o Universo — repeti.
— Excelente, excelente. Temos uma proposta de, esta noite, centrar a conversa no Universo.
(...)
Chegou a vez de Laura, que não escondeu que grande parte da inspiração para sua visão de mundo era alimentada pela filosofia hindu, sobretudo pelas seis escolas ortodoxas chamadas vedanta, melhor dizendo, keval-advaita, expressão que vinha do filósofo Shankara, que viveu na índia no início do século IX. Keval-advaita significa “não-dualismo absoluto”, esclareceu Laura. Proclamou que só existe uma realidade e que os hindus a batizaram de brahman ou mahatma, que significa “alma universal” ou, numa tradução mais direta, “a grande alma”. Brahman era eterno, indivisível e imaterial. Desse modo, todas as perguntas feitas por John receberam resposta, e apenas uma resposta, já que brahman era a resposta a todas as perguntas feitas.
— Deus nos livre, Laura — suspirou Bill, que havia sustentado um otimismo científico bastante ingênuo.
Mas Laura não se alterou. Explicou que toda pluralidade não passava de aparência.Quando no dia a dia percebemos o mundo como algo variado e plural, isso se deve unicamente a uma miragem, falou, ou ao que os hindus durante milhares de anos vêm chamando de maya. Porque não é o mundo exterior, visível e material que é real.
Esse mundo não passa de uma ilusão onírica, e certamente real para os que estão presos em sua rede. Mas, para o sábio, o mundo real é brahman, a alma universal.
A alma humana é idêntica ao brahman, explicou, e quando entendemos isso, desaparece a ilusão da realidade exterior. Então a alma se toma brahman, o que na realidade sempre foi, mas sem que soubéssemos.
— Ela disse a última palavra — afirmou John.
— O mundo exterior não existe, e toda pluralidade não passa de aparência.
(...)
— Cremos que somos nove almas sentadas em tomo de uma mesa — precisou Laura. — Isso se deve a maya. Na realidade, somos facetas da mesma alma. E a ilusão maya que nos faz crer que os outros são distintos de nós, por isso não devemos ter medo da morte. Não existe nada que possa morrer. A única coisa que desaparece quando morremos é a ilusão de estarmos separados do resto do mundo, da mesma maneira que pensamos que o que sonhamos está separado da nossa alma.
(...)
— Existe uma realidade fora desta. Quando eu morrer, não terei morrido. Todos acreditarão que morri, mas não estarei morta. Logo voltaremos a nos encontrar em outro lugar. (...)
— Vocês vão pensar que foram a um funeral, mas na realidade irão assistir a um nascimento. (...)
— Há alguma coisa fora disto — insistiu. — Aqui não somos mais que espíritos efêmeros, que estão de passagem. (Jostein Gaarder. Maya, pág. 184-197)

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