quarta-feira, 23 de março de 2011

Que Ana? Que onda?

A proposta dessa redação de Filosofia era "O ser humano é como uma onda no mar?"

Mateus Silva Figueiredo

Cada pessoa que olha para o mar vê uma coisa. Alguns vêem o oceano, alguns vêem a praia, alguns vêem os pássaros e outros vêem os peixes. Alguns vêem conchas para colecionar, outros vêem fotos para tirar. Enquanto uns vêem as ondas para surfar e se divertir, outros vêem a maré para pescar e ganhar a vida.

O mesmo mar que encanta é o mar que destrói. O mar diverte, o mar relaxa, o mar hipnotiza, mas ele não deixa de ser o mesmo mar que aterroriza e que causa devastação. O mar afoga os mais descuidados, destrói os castelos de areia mais próximos da água, derruba diques e dizima cidades. A mesma onda que faz cócegas nos pés descalços do casal de namoradas pode ter feito alguém passar mal em alto mar e vomitar.

As pessoas também são assim, ambíguas. Todas as pessoas têm um lado obscuro, um passado que gostariam de esconder. Todos nós erramos, todos nós mentimos, todos nós fazemos escolhas ruins, e muitas vezes nos arrependemos logo depois. Cada pessoa é a coisa mais importante para si mesmo, mas não é quase nada para todas as outras. Você cruza com milhares de pessoas na rua, mas raramente olha duas vezes para qualquer uma delas. Cada uma é única, especial, diferente de todas as outras. Mas, no meio de tantos indivíduos, ficam todos iguais. Você se mistura na multidão e se torna apenas mais um.

Qual é a diferença entre uma onda e outra? São tantas mil no oceano, porque alguma delas deveria ser especial? Se você olha de cima, nenhuma faz diferença. Mas se você é o menino que estava brincando na água, aquela onda importa. Adrenalina, desequilíbrio, susto, medo, e depois o riso. Aquela onda causou diversão em você. Se você é o caranguejo que passeava na praia, aquela onda importa, e se você é o albatroz que ia mergulhar e devorar aquele caranguejo, aquela onda importa. Aquela onda foi, ao mesmo tempo, a salvação de um e o empecilho de outro.

Do mesmo jeito, se você olhar de cima, poucas das quase 7 bilhões de pessoas realmente importa. Mas se você é o amigo que sai todos os dias para se divertir, ou se você é o colega que faz brincadeiras maldosas, você faz a diferença. Se você é o cachorro que recebe carinho de alguém, esse alguém é importante, e se você é a árvore que foi plantada por alguém, esse alguém é importante. Mas se você mora do outro lado do mundo, ou mesmo se você cruza na rua com essa pessoa e nem sorri na direção dela, você não faz diferença.

As ondas surgem em alto mar, forjadas com o sopro de uma tempestade, e caminham em sua rota em direção a praia. As pessoas nascem, sejam elas fruto de um casamento amoroso, de uma imprudência adolescente ou de uma solteirona de quarenta anos. As ondas ganham dimensão, ficando cada vez maiores, e consequentemente, mais poderosas. As pessoas crescem, vão ficando mais sábias, mais ricas, e também mais velhas. As ondas, já tão grandes quanto poderiam ficar, chegam finalmente à praia; quebram no litoral e cumprem então finalmente o seu destino, o motivo da sua existência. As pessoas, já tão ricas e sábias quanto poderiam ficar, chegam finalmente ao fim de suas vidas, deixando suas riquezas acumuladas para seus herdeiros, e sem saber verdadeiramente se aproveitaram realmente a vida como deveriam.

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